A cobra e a macaca.

Era uma vez, nas arábias, uma cobra que vivia rastejando pelas areias. Fazia, do veneno que expelia pela boca, a sua forma de subjugar outros animais e conseguir o seu sustento. Uum dia, porém, deparou uma macaca...

- Olá, Dona Macaca! O que faz aí sobre a árvore?

- Bom dia, Dona Cobra! Tudo bem? Ah, eu subo aqui de vez em quando, para admirar a paisagem, enxergar o mundo de forma mais ampla, entender a vida dos outros animais.

- Mas é possível ver tudo isso? - indagou a cobra.

- Ora, mas é claro! Aí nas areias há pouco verde, pouca água; o calor é muito grande e...

- Eu ODEIO esse mundo! - interrompeu a cobra - Não sei como você consegue ter esse ânimo diante das coisas! Ontem mesmo quase fui picada por um escorpião, veja você, Dona Macaca! Não há felicidade nesse mundo; devemos odiar TUDO o que tem aqui!

- Mas Dona Cobra... Não é possível que tudo aqui seja ruim. Veja só toda essa beleza; veja aqueles animais brincando felizes, veja...

- VOCÊ É LOUCA! - bradou a cobra - Esses animais estão chafurdando na lama da ignorância! Como podem ser felizes nesse lugar??? Bom mesmo, Senhora Macaca, são as areias europeias... Ah, aquilo sim é que é mundo! Lá, não há escorpiões tentando nos ferroar a todo momento.

- Dona Cobra, a senhora parece estar muito ferida... Entendo que de vez em quando algumas criaturas tentam nos ferir. Veja só: ontem mesmo eu estava passando por perto de sua toca e a senhora, assustada, tentou me picar. No entanto, hoje estamos aqui, conversando. Não acha que é possível sair um pouco do seu esconderijo e conviver mais conosco? Tem muito bicho legal por aqui.

- Impossível. Eu não vou me misturar com esse bando de atrasados. Eu sou muito superior! Jesus disse que eu sou o símbolo da prudência!

- De fato, Dona Cobra. Mas ele falou "prudência", não "violência" e, tampouco, "maledicência", né? E, perdoe-me, mas a senhora anda sendo bastante maledicente nos últimos anos...

- Olhe, eu vou embora, porque você não passa de uma imbecil! Cuidado comigo, viu, porque eu sou dragoniana!

- Não seria "draconiana", Dona Cobra?

- Cada um com a sua multividência!

- Não seria mundividência, Dona Cobra? É que a palavra vem de "visão de mundo"...

- Você se acha mais inteligente do que eu, não é?

- Não, eu não me acho não. Mas, pelo visto, a senhora se pressupõe muito inteligente. E desculpa, mas eu sempre desconfio de gente assim.

- Quem é você para falar assim comigo? Você não sabe quantos livros eu já li! Vá à merda com essa sua conversinha! Eu vou é ficar na minha toca até morrer! E depois, quando eu reencarnar, vou para a Europa, viver no meio de cobras de verdade.

- Dona Cobra, posso te fazer uma pergunta?

- Diga logo.

- Se a senhora não está sendo capaz de construir uma sociedade justa, saudável e próspera AQUI, onde nasceu, o que a credenciaria a reencarnar entre outros que, ao contrário, vivem juntos e misturados e vêem, ao longo de milênios, construindo o que hoje a senhora considera o "mundo civilizado"? Desculpe-me mais uma vez, mas não parece sensato crer que alguém que jamais construiu sequer uma cadeira para se sentar possa se integrar perfeitamente a uma comunidade de grandes artesãos.

- Você não entende NADA sobre ser europeia! Eu vim de lá, minha filha!

- Olha, se veio, parece que a senhora era tão boa nisso que foi jogada pra cá, né?

- Você me respeite, porque...

- Dona Cobra, dá licença! Tem um pessoal ali se manifestando e cheio de vontade de construir um Brasil mais justo e eu vou lá fazer a minha parte! Até mais!